O que é o Oulipo?

8 de setembro de 2009 às 22:43 | Publicado em História do Oulipo, O que é o Oulipo | 2 Comentários
Tags: , , ,

 

Quando em 1960, Raymond Queneau e o matemático François Le Lionnais criaram o Ouvroir de Littérature Potentielle, talvez não se dessem conta do amplo sucesso e da longevidade de seu empreendimento. Sob a influência de Raymond Roussel, Bourbaki e da Patafísica, a Oficina de Literatura Potencial pretendia realizar experimentações de estilo a partir de antigas práticas retóricas, mas também inventar novas restrições, as famosas contraintes, que pudessem guiar o esforço de criação. Em encontros marcados sobretudo com o humor, explorar as potencialidades da linguagem, injetando noções matemáticas na invenção romanesca ou poética, era o que queriam esses oulipianos que se diziam “ratos que constroem eles próprios os labirintos de que propõem sair”. O sucesso da publicação de seus textos, durante uma década, levou-os à organização dos primeiros estágios. Rapidamente, eles atraíram um público tão numeroso que se viram obrigados a escolher entre continuar suas pesquisas e produções ou organizar as oficinas.
Existem hoje duas grandes tendências que norteiam as oficinas de escrita: a tendência da expressão e a tendência da produção. A idéia de uma prática coletiva da escrita, gerando uma reflexão sobre a linguagem, evidenciando a relação indissociável entre teoria e prática, entre leitura e escrita, fundamentando assim a reescrita consciente do texto, é a base do segundo tipo de oficina, que segue o caminho oulipiano.

Como os oulipianos se organizavam? O que justifica esse tamanho comprometimento imposto pelo grupo (até depois da morte)?

Os primeiros oulipianos apostavam no caráter coletivo da escrita. A partir do dia 25 de novembro de 1960, data em que o grupo foi fundado em Paris, seus membros reuniram-se mensalmente durante anos, para discutir o conjunto de seus experimentos e invenções. Cada reunião cumpria uma severa e imutável ordem do dia registrada em atas e rubricas. Na rubrica “criação”, uma nova regra de composição textual era sempre apresentada, na rubrica “erudição”, dedicavam-se à leitura de autores que os oulipianos chamavam ironicamente de “plagiadores por antecipação” : os trovadores, os Grandes Retóricos, Maurice Scève, o poeta barroco alemão Quirinus Kuhlmann eram alguns deles. Desde o início, evidenciavam-se a presença do humor e até certa afetação de diletantismo nessas reuniões, como mostra o próprio Raymond Queneau ao afirmar em 1964: “Nossas pesquisas são 1- ingênuas (no sentido perimatemático); 2- artesanais; 3- divertidas”. Durante vários anos, o Oulipo permaneceu desconhecido do público. E os resultados dessas pesquisas, na forma de uma série de opúsculos, só foram publicados a partir de 1974, compondo hoje os três volumes da Biblioteca Oulipiana (B.O.).  Embora no Brasil não seja ainda tão conhecido, o Oulipismo não deixou de se expandir em autores (vivos e mortos), em oficinas de escrita em vários países, e até hoje entusiasma escritores, professores, estudantes, leitores reunido.

Portanto, os oulipianos se organizaram, se organizam e, ao que parece, continuarão se organizando. Assim, interrogar-se sobre os “primeiros”
oulipianos, segundo o próprio espírito do Oulipismo, pode ser um contrasenso. Marcel Bénabou intitula seu artigo de comemoração dos 40 anos de atividades do grupo, não à toa, “Quarenta séculos de Oulipo”, na revista Magazine Littéraire (n. 398, de maio 2001).
O Ouvroir de Littérature Potentielle, ou Oulipo, apostava no oulipismo: um trabalho sob a forma de um jogo calculado no encadeamento dos sons de que nascem as possibilidades de significação de um texto. O riso, como fruto de uma fabulosa alquimia sonora, era o maior alvo, para esses escritores, matemáticos, poetas, lógicos que se reuniam simplesmente para ler e escrever, numa tentativa de revigorar as potencialidades da literatura e, de modo geral, da língua. Raymond Queneau, George Perec, pouco traduzidos ainda no Brasil, e Italo Calvino, para citar três nomes que produziram obras-primas dentro do Oulipo, apesar de se encontrarem do “outro lado”, ainda pertencem ao grupo, pois seus textos nunca deixarão de impulsionar a escrita
de seus leitores. Uma vez oulipiano, sempre oulipiano, até depois da morte !!!


2-Como os oulipianos usam a restrição como forma de criar ?

O termo contrainte é muito corrente na língua francesa. Também prefiro traduzi-lo como “restrição” apesar de, etimologicamente, “constrangimento” ser-lhe mais próximo.  Antes de falar da restrição na prática de escrita do Oulipo, cabe lembrar uma evidência : toda construção discursiva implica num certo número de restrições. A gramática e o vocabulário, por exemplo, restringem nosso dizer sem que necessariamente nos demos conta disso. Tais restrições discursivas não são da mesma ordem que as restrições de escrita que intervêm na produção dos textos do Oulipo. Uma contrainte d’écriture caracteriza-se por ser  uma  formulação que pode ser escrita como um enunciado. Portanto, a restrição, nesse sentido, não é o texto e sim o seu pretexto: uma regra que funcionará como modelo e ponto de partida para a fase propriamente escritural. Lipogramas, palíndromos, anagramas, pastiches, listas, quantas não são as restrições para uma escolha voluntariamente consentida, capaz de levar quem a quiser a inventar estratégias textuais que liberem a literiariedade.

“As restrições libertam” .O paradoxo apontado por Michel Leiris, ao estudar a escrita de Raymond Roussel, advém da conclusão de que a sujeição voluntária a uma regra difícil, exigindo muita concentração em dados aparentemente fúteis, distrai o autor, suspendendo seus mecanismos de censura. Livre da necessidade de significar, de ter algo a dizer, de encontrar algum sentido precedente a seu ato de escrita, o autor concentra-se no fazer do texto. Abertura da língua a diversas possibilidades, a restrição é a condição do acontecimento do texto.

Sabe-se, ao menos desde Mallarmé, que a linguagem é materialidade e que a forma implica produtividade e potencialidade de sentido. Submeter os elementos que compõem a forma a certas operações e manipulações para pesquisar o resultado é constranger a matéria lingüística, obrigando-a a sair de seu funcionamento rotineiro, liberando assim seus componentes para outras combinações possíveis.


3-Para os oulipianos, a restrição facilita ou dificulta?

Realmente, os oulipanos parecem inverter o valor da restrição que, em geral, é considerada como um fator de dificuldade. No entanto, o soneto, por exemplo, cujas regras remontam a uma vasta tradição, nunca irá esgotar seu potencial de invenção literária.

Toda contrainte/consigne, que poderíamos traduzir como restrição/prescrição, segundo o Oulipo, consiste numa espécie método motivador. Longe de funcionar como instrumento de encarceramento, de poda castradora, a restrição libera, naquele que escreve, novos relevos muitas vezes desconhecidos pelo próprio autor.

4 -As restrições colocadas pelo grupo são sempre perceptíveis ou enunciadas?

A questão da dissimulação ou do desvelamento das restrições nunca foi decidida no seio do Oulipo. Se alguns preferem restrições invisíveis, outros são partidários de sua divulgação e, ocasionalmente, um mesmo autor pode alternar as duas posições. As atitudes são muito diversas e induzem regimes variados não somente quanto à manifestação dos pressupostos formais na fabricação de um texto; inclusive o leitor pode escolher não ler o enunciado da regra de um livro composto sob restrição. Há exemplos: o leitor pode ler La disparition (1969), de George Perec, romance escrito sem a vogal mais usada em francês, a letra “e”, sem se dar conta desse axioma lipogramático que preside à composição do livro, explícito em seu  incipit.

5- Você pode discorrer um pouco sobre a relação entre a produção literária e a matemática no Oulipo?

Por um lado, aliar a literatura e a matemática é um modo de se precaver contra nossa época que não conseguiu renunciar a certo vocabulário: inspiração, literatura, sensibilidade, coração, gênio permanecem termos veiculados e muito usados. Não conseguem seus usuários se desvincular da concepção romântica da obra – fruto de uma efusão – e do autor – doador de sentido.

Por outro lado, assim como para um matemático pode importar menos o resultado de um problema que o processo de sua formulação, para o  Oulipo, trata-se de formular as equações da produção de um texto. O oulipismo parece julgar que a linguagem é matemática e que a matemática é uma linguagem.

6 -O que é a literatura combinatória?

Data de 1973, uma série de livros e artigos dos autores oulipianos publicados em edição de bolso tornando a iniciativa do grupo extremamente acessível na França:
OULIPO, La Littérature Potentielle, ed. Gallimard, 1973 (2ème édition, Folio, 1988)
OULIPO, Atlas de Littérature Potentielle, ed. Gallimard, 1981 (2ème édition, Folio, 1988)

Determinado grupo passou a se dedicar a um trabalho próximo ao do OULIPO, mas exclusivamente feito por computador – o ALAMO (Atelier de Littérature Assistée par la Mathématique et les Ordinateurs) que reuniu escritores, professores, lingüistas, pesquisadores de inteligência artificial e pedagogos.

Jacques Roubaud, Marcel Bénabou, e Pierre Lusson definiram procedimentos algorítmicos para a criação de textos segundo certas contraintes que foram em seguida informatizadas. O grupo entendia não haver, portanto, descontinuidade entre a exploração da tradição mais remota do cálculo combinatório e a produção de literatura assistida por computador, a partir de 1981.

Roubaud e Braffort propuseram a ampliação de mais um grupo dedicado exclusivamente à literatura/informática. Vale visitar o endereço da Internet de Olivier Salon com acesso aos fascículos da Biblioteca Oulipiana:

www.oulipo.net/oulipiens/OS

 

Fonte: textos retirados da Revista Continuum – São Paulo, 2008 e Itaú Cultural

Anúncios

2 Comentários »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

  1. […] e matemáticos que, nos anos 1960, passaram a se reunir para propor atividades fechadas, estritas: “ratos que criam o labirinto onde eles mesmos irão se perder”. Não se trata, portanto, de experimentar com o que vem à cabeça. Como naquela velha brincadeira […]

  2. […] Aqui, Aqui, Aqui, […]


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: